TEXTO: FRANCISCO JAVIER SANCHO MAS IMAGENS: LEAFHOPPER

Antes de entrarmos no porão da Rua Coslada, em Madrid, sede da associação AMAI TLP, nos deram um aviso: «Melhor não vir com preconceitos». E, para nós, isso se traduziu em um caderno com folhas em branco. Pela primeira vez nas nossas reportagens sobre os projetos da série Super-heróis do Bairro, chegamos sem uma única pergunta anotada. Dispostos a ver e ouvir. Porque as perguntas, às vezes, podem vir carregadas de preconceitos.

Chegamos correndo. Chegamos tarde. Apenas dizemos bom dia e, já na entrada, quase sem nos prepararmos, nos levam a uma sessão de grupo. Pedem que nos sentemos e observemos. Somos recebidos por seis mulheres jovens, com idades entre 20 e 30 anos. A timidez resfria o ambiente. Para algumas dessas mulheres, o fato de alguns jornalistas com câmeras virem aqui é novo. Na frente de uma tela, de pé, está Alejandra, que é psicóloga. Hoje a sessão abordará o tema «Funcionamento e Autonomia». É a quinta sessão que esse grupo de meninas participa, todas com diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline. A partir de agora, o chamaremos de TPB.

O que é o TPB?

De acordo com uma das referências mais importantes em saúde mental, a American Psychiatric Association (APA), o TPB consiste em um «padrão persistente de instabilidade nas relações interpessoais, afeto e autoimagem com pouco controle dos impulsos» (2001).

Pelo que sabemos sobre o TPB, as seis meninas que conhecemos hoje sofrem, em maior ou menor medida, dificuldades em administrar suas emoções e impulsos e, em muitos casos, tendências suicidas ou de autolesão. E o sofrimento delas se expande ao seu redor imediato.

Estamos em uma das salas deste porão cheio de cantos que se convertem em espaços grandes e médios para reuniões e consultas. Existe ainda uma cozinha e um pátio interior para cuidar das plantas. É um porão que se parece com um cérebro em plena atividade. A AMAI TLP (Associação Madrilena de Assistência à Pesquisa em Transtorno de Personalidade Borderline) foi fundada no ano 2000 por familiares de pessoas afetadas e sua missão é ajudar as pessoas que sofrem com esse transtorno e suas famílias, além de pesquisar e disseminar um melhor conhecimento sobre o TPB e sobre as pessoas que sofrem do mesmo.

A doença do século XXI?

Na Espanha, o TPB é conhecido há um tempo relativamente curto e estima-se que afete entre 2 e 3% da população. Nos Estados Unidos, esse número é estimado em 4%. Tudo é muito relativo, porque a maior parte das pessoas que sofrem com esse transtorno não é diagnosticada. No entanto, cada vez mais e mais casos são encontrados, a tal ponto que alguns já o chamam de doença do século XXI, acima da esquizofrenia.

Teresa Oñate, presidente da AMAI TLP, enfatiza que a prevenção deve começar nas escolas, desde pequenos, até mesmo após a gravidez.

«Uma pessoa com doença mental», diz Teresa, «causa um impacto em aproximadamente 10 outras pessoas em seu entorno. E a atenção necessária para quem a sofre é quase 24 horas». Ela sabe por experiência própria, como nos contará mais adiante.

Cristina veio para a terapia hoje. Ela tem uma voz calma, como de alguém que respira profundamente.

Como chegar até você?

Perguntamos às meninas se elas se comunicam com seus parentes mais próximos para que saibam que elas estão no limite. Assim lhes enviam um S.O.S.

«Cara», diz Eva, «se passo uma semana trancada no meu quarto, sem comer ou dormir, é uma mensagem muito clara, não é?»

O que você faz quando se sente muito mal?, perguntamos a elas. Marian diz que dorme, escreve ou estimula seus sentidos: «Coloco gelo nos pulsos ou sinto o cheiro de coisas muito fortes».

Eva percebe que está mal quando passa muito tempo comendo cabelo. «Eu tenho tricotilomania e tricofagia». Ela arranca e come o cabelo. «Para me acalmar, começo a andar pela sala com música muito alta». Rebeca sofre pesadelos frequentes de agressões. Quando se repetem por várias noites, ela sabe que está pior.

Cristina e Ana

Graças aos quase 300 parceiros que a associação possui (alguns familiares de afetados e outros não) e ao apoio de entidades privadas como a Fundación MAPFRE, a AMAI pode ajudar na pesquisa sobre o TPB, cuidar de pessoas que sofrem com isso e também na prevenção.

Teresa, presidente da associação, explica que são ofertadas uma média de 5 mil consultas mensais neste centro. É um serviço especializado. «Sempre começamos com uma entrevista e depois encaminhamos o caso ao psicólogo, para uma terapia individual, seja de um familiar ou de um afetado. Contamos com musicoterapia, mindfulness, ioga, dança, terapia comportamental, escolas familiares, excursões. Os afetados saem uma vez por mês. E, uma vez por ano, é feita uma excursão com a família dos afetados, acompanhada por um psicólogo. Há pessoas que entraram muito, mas muito mal e, no entanto, hoje estão trabalhando e levando uma vida normal».

A psicóloga Ana Cabadas trabalha na AMAI há dois anos e meio. Atualmente, ela atende 42 pessoas afetadas na AMAI. Ana foi testemunha e companheira no processo de melhoria de Cristina, uma jovem de 23 anos, com uma aparência alta e imponente, como a de uma modelo, que anteriormente sofria de grande instabilidade emocional, de um sofrimento intenso e da incapacidade de manter a rotina de um trabalho. Ela também sofreu dependência de um relacionamento tóxico, algo que também é muito comum em pessoas com TPB, que sofrem com o medo do abandono e da gestão da solidão.

Cristina veio para a terapia hoje. Ela tem uma voz calma, como de alguém que respira profundamente. «Na adolescência, era difícil para mim interagir com os outros», confessa. «O TPB é um problema difícil de gerenciar. Um dos sintomas que tive foi o isolamento. Aos 16 anos fui internada em um instituto. Lá eu passei muito mal. E sofri bullying. Começaram a me medicar desde muito jovem. Em uma consulta da previdência social, me recomendaram este centro.»

Os pacientes que frequentam a AMAI geralmente o fazem depois de serem informados pelas redes sociais, pela internet ou por derivados de um centro de saúde. A AMAI colabora com centros de saúde mental para oferecer essas terapias que o sistema não proporciona. Para Cristina, as consultas com a Ana a ajudaram dramaticamente.

«Agora que moro sozinha e, graças à terapia, posso conversar com meus pais sem problemas. Antes era muito difícil, porque discutíamos por tudo. Meu pai me criticava até pelo modo como eu me vestia, ou porque pensava que eu fazia coisas contra ele. Agora, depois de conhecer o diagnóstico e vir às terapias familiares, tudo é muito diferente».

«É mais fácil reconhecer que você é cego, mas, ah meu amigo, reconhecer que você tem uma doença mental, não é… não sei quando a sociedade decidiu que a cabeça não pertence ao corpo».

Para resumir sua melhoria, Cristina nos conta que está empregada (é oficial de informática em uma agência de detetives, nada menos). Tem sua própria casa e até cuida de um animal de estimação. «Eu me via incapaz de fazer tudo isso até muito recentemente». A mudança de foco foi crucial para ela. «Antes de passar pela AMAI, era o mundo que tinha o problema, não eu».

Meu filho Guillermo

Teresa aprendeu sobre o TPB convivendo com um de seus seis filhos. O nome dele é Guillermo. «Na época morávamos na Catalunha», nos conta. «Lá, o Dr. Vicente Rubio começou a trabalhar com pessoas com TPB e meu filho estava preso. Ele foi condenado a 10 anos de prisão, mas a prisão não é a solução», diz Teresa com um bom humor que é sua arma mais forte.

Onde está Guillermo agora? «Ele está no hospital San Juan de Dios, onde deveria estar. Ele é muito bem atendido lá. Existem pessoas que, por não serem tratadas a tempo, não podem viver na sociedade sem riscos de sair do controle. E é melhor que tenham um centro onde possam residir com os cuidados adequados. A cadeia foi pior para ele. Ele é muito carinhoso. Mas agora tem 42 anos e está bem, que é o que importa».

E tivéssemos nos equivocado? Um juiz toma a palavra

Arturo Beltrán, presidente da 5ª seção penal do Tribunal Provincial de Madrid, durante a Conferência de Justiça e Saúde Mental, organizada pela AMAI em novembro de 2018, admitiu que durante muito tempo esteve inconsciente desse problema. «E há alguns dias tenho me dado conta de que pudemos ter cometido barbáries ou erros» sobre pessoas com TPB que foram condenadas ou mandadas para a prisão.

Teresa, que sofreu na carne de seu filho, relativiza um pouco a coisa e, ao mesmo tempo, confirma a seriedade do assunto: «Às vezes, os juízes querem enviar um detento para o hospital, mas não há camas suficientes». E tanto as declarações de Teresa como as do juiz falam do fracasso de um sistema que é incapaz de responder à doença de 3% da sociedade (ou talvez muito mais).

A AMAI TLP é, em si, uma esperança para tantas pessoas que, como Teresa disse antes, estão cansadas de procurar quem as atenda com dedicação. O trabalho da AMAI na formação de profissionais de diferentes setores, como a saúde, a educação, as famílias e o sistema judicial, é fundamental para dar uma resposta mais abrangente a um problema que toca a todos nós.

Chegamos com um caderno em branco e muitas incertezas. Hoje, graças à AMAI, nós também descobrimos que podemos não estar tão sozinhos quando estamos sozinhos.