E se os 60 fossem os novos 40? A economia começa a reconhecer a idade madura como um mercado de atrativo cada vez mais jovem devido à sua capacidade de consumo, à qual se acrescenta o valor agregado da necessidade de cuidados. No contexto da pandemia de Covid-19, o Centro de Pesquisas Ageingnomics da Fundación MAPFRE apresentou suas últimas descobertas em um seminário que pode ser visto on-line.

TEXTO: ÁNGEL MARTOS IMAGENES: ISTOCK

A revista estadunidense Allure é uma das referências editoriais mais importantes do mundo da beleza. É publicada por Condé Nast, o mesmo grupo editorial responsável pela prestigiosa Vogue, mais voltada para a moda. A revista Allure, em sua edição de setembro de 2017, fez um anúncio em sua capa que nocauteou a indústria da beleza: o termo anti-idade era persona non grata em suas páginas. «Pedimos às pessoas que reflitam e considerem por que atribuímos uma conotação negativa a algo tão completamente natural», escreveu sua diretora, Michelle Lee. «Não, nem tudo sobre o envelhecimento é necessariamente maravilhoso, mas a oportunidade de envelhecer é sim, e não é algo que devemos lutar contra».

A declaração também se converteu em uma chamada de atenção à indústria da beleza, que só na Espanha movimenta 8 bilhões de euros todos os anos, e pôde dar voz a um rumor que começava a ser estrondoso e que poderíamos resumir em uma única frase: envelhecer não é tão ruim assim. Nos últimos anos, as marcas deram um fim àquelas mensagens que nos faziam sentir como se cada ruga descoberta em frente ao espelho fosse um fracasso pessoal, para construir um novo conto de fadas positivo e realista que os gênios do marketing chamaram de pro-ageing. O neologismo define o conjunto de produtos, tratamentos, cuidados de saúde e bem-estar «que nos ajudam a encontrar a melhor versão de nós mesmos, seja o que for que isso signifique para você», nas palavras de Paul Jarrod Frank, dermatologista da cantora Madonna e de outras celebridades, em seu livro The Pro-Aging Playbook. Independentemente de qual seja o nome do hidratante que faz a gente se sentir melhor, a verdade é que essa abordagem empoderadora do ato inevitável de envelhecer parece ter penetrado criativamente os demais produtos e serviços que compõem e nutrem o ecossistema do envelhecimento. É justamente com esse espírito que a Fundación MAPFRE criou o Centro de Pesquisas Ageingnomics, um conceito cunhado pela MAPFRE e pela Deusto Business School a partir da união das palavras em inglês “ageing” (envelhecimento) e “economics” (economia). Seu objetivo é divulgar uma visão positiva da mudança demográfica sobre a base das oportunidades econômicas e sociais que significam o envelhecimento da população.

«Surpreendentemente, o aumento da expectativa de vida, que constitui uma das grandes conquistas da humanidade, foi tratado no debate público como um fenômeno com consequências essencialmente negativas», reconheceu Juan Fernández Palacios, CEO da MAPFRE Vida, durante o primeiro seminário acadêmico sobre envelhecimento realizado em dezembro de 2020 pelo Centro de Pesquisas Ageingnomics, no contexto da pandemia de Covid-19. «Colocamos ênfase no impacto desequilibrante no sistema previdenciário, no aumento associado dos custos de saúde ou de atenção a pessoas dependentes… Acreditamos que seja uma visão incompleta, tendenciosa, e que precisamos corrigir», expôs Fernández Palacios. Ao contrário do que se pensa, esse milagre médico da longevidade está cada vez mais associado a uma melhoria na qualidade de vida de pessoas que até muito recentemente eram consideradas amortizadas para além da aposentadoria.

La oportunidad de envejecer

O rejuvenescimento da sociedade

É o que Adela Cortina, catedrática emérita de Ética e Filosofia Política da Universidade de Valência, 74 anos, chama de «rejuvenescimento» das nossas sociedades: «O mundo não está envelhecendo, mas rejuvenescendo […] Na verdade, qualquer um de nós está muito melhor do que nossos avós estavam na nossa idade, não importa qual seja ela». Sua palestra sobre a ética do envelhecimento em tempos de pandemia consegue encher de ideias e de emoções a fria distância imposta pelo encontro on-line, e junto com afirmações contundentes («A velhice como doença é uma farsa»), centra sua intervenção na denúncia da gerontofobia e da discriminação etária que permeiam fortemente nossas sociedades. «Desenmascarar la gerontofobia» (Desvendando a gerontofobia, em português) foi justamente o título de seu artigo publicado no jornal El País em julho passado e que teve grande repercussão nas redes sociais.

«Os idosos não são improdutivos», afirma Cortina. «Por um lado, porque continuam consumindo, também porque às vezes são eles que têm mais meios financeiros para consumir. Os avós têm um potencial maravilhoso para cuidar dos netos quando os pais têm que ir trabalhar, etc. Se não fosse pela solidariedade de muitos aposentados, haveria famílias que não teriam condições de se manter de forma alguma». Uma descrição da silver economy, ou economia prateada, conforme definida pela OCDE, que Ignacio Baeza, primeiro vice-presidente do patronato da Fundación MAPFRE, confirma e reforça com dados: «Os idosos na Espanha têm estabilidade financeira, porque estamos sob a égide de um estado de bem-estar e, portanto, existe uma previdência pública, além da poupança que cada um tem. 90% dos idosos possuem casa própria, e não acho que haja outro país no mundo que tenha esses dados, e 75% estão livres de contas, não têm empréstimos».

Estes números foram extraídos do 1º Barômetro do Consumidor Sênior publicado pelo Centro de Pesquisas Ageingnomics e confirmam a Espanha como o país europeu que pode liderar uma estratégia global de exploração de novos nichos econômicos nascidos a partir do prolongamento da vida. São o conjunto de oportunidades derivadas do impacto econômico e social das atividades desenvolvidas e demandadas pela população com mais de 55 anos. Hoje já representa 25% do PIB europeu, mas em 2025 será responsável por 37,8% dos seus empregos. «É chamativa a preferência de muitas empresas e grupos por direcionar suas mensagens aos jovens, apesar das evidências de que o poder de compra está majoritariamente nas mãos da geração silver», destacam os diretores do estudo, Juan Fernández Palacios e Iñaki Ortega Cachón. De fato, este barômetro confirma que 56% dos consumidores sêniores, um segmento da população entre os 55 e 75 anos, são capazes de economizar todo os meses e que 60% se sentem seguros diante da incerteza econômica, afirmando que sua situação não vai piorar nos próximos anos.

É chamativa a preferência de muitas empresas e grupos por direcionar suas mensagens aos jovens, apesar das evidências de que o poder de compra está majoritariamente nas mãos da geração silver

No seminário organizado pelo Centro de Pesquisas Ageingnomics foi possível verificar a riqueza de propostas e ideias de produtos e serviços para um mercado cheio de oportunidades e aberto ao modelo de negócios das startups. Foram apresentados sete projetos selecionados pela comissão científica composta por representantes da Fundación MAPFRE, Deusto Business School e especialistas independentes. De todos eles, destacam-se as iniciativas dirigidas a grupos particularmente vulneráveis e que representam um avanço em relação às experiências anteriores no âmbito da economia do envelhecimento.

A pandemia: um teste de estresse

São projetos que, na maioria dos casos, nascem da colaboração público-privada, respondem a necessidades descobertas ou confirmadas por investigações universitárias e encontram nas novas tecnologias a primeira resposta, mas não a única, aos desafios da mudança demográfica.

Nesse sentido, a pandemia foi (é) uma tragédia humana global, mas também um teste de estresse inesperado que expôs as fraquezas de um sistema otimizado ao limite de sua capacidade. A pandemia obrigou muitos setores a dar um salto de anos e a acelerar a digitalização de processos que antes víamos apenas como tendências futuras, como o já normalizado ‘home office’, e que hoje já fazem parte do cotidiano de milhões de pessoas. O presente se converteu em um grande cenário para as propostas apresentadas no seminário, que incidem justamente no poder da tecnologia de melhorar a qualidade de vida dos idosos.Assim, graças a Jésica de Armas Adrián (Universitat de Barcelona/Universitat Pompeu Fabra) e ao seu estudo sobre a incidência de casos de COVID-19 na cidade de Barcelona, aprendemos «as vantagens do atendimento domiciliar em vez de lares e residências em relação às doenças infecciosas». Javier Isaac Lera Torres (Universidade da Cantábria/IDIVAL) questionou como podemos melhorar o cuidado de longo prazo para os idosos. E Andrés Losada Baltar (Universidade Rey Juan Carlos) enfatizou a necessidade de proteger os cuidadores de idosos. No campo da inovação empresarial, destacam-se projetos como o Ubikare, da Nerea Amenábar, um serviço integral de saúde e atendimento à domicílio para idosos e/ou dependentes e seus familiares. Beatriz Santamaría Trincado apresentou Bizipoz, um programa de formação ativa e participação social dirigido a pessoas com mais de 55 anos que visa promover o envelhecimento ativo e saudável e fazer da aposentadoria uma transição, e não um salto para o abismo, com a ajuda das empresas.

María González Manso explicou o que é Tucuvi, o assistente virtual de acompanhamento a idosos e pacientes crônicos. E Román Vilares, da Inbizi Healthcare, apresentou o Noa, um gerenciador de medicamentos automático e programável conectado a redes de telecomunicações, que permite dispensar a dose precisa do medicamento e se comunicar com o cuidador por meio da tecnologia wireless.

Todos esses projetos falam de um otimismo econômico mesmo em tempos de Covid-19 que, no entanto, tem que lutar contra o olhar discriminatório da sociedade. «Durante a pandemia, o que já existia veio à tona com mais clareza, como é o caso da gerontofobia e da discriminação etária», enfatiza Adela Cortina. Criadora do termo aporofobia há 20 anos para definir a rejeição a pessoas pobres, esta catedrática sabe que a discriminação contra os mais vulneráveis é universal. Por isso, volta a recorrer à capacidade das palavras de tornar visíveis os defeitos sociais, neste caso, a gerontofobia – ou rejeição aos idosos – e o ‘ageism’ (idadismo), termo cunhado por Robert Butler em 1969 para definir a discriminação em função da idade. Cortina se propõe a combatê-los com firmeza, «porque são imorais, violam a dignidade humana e não são muito inteligentes». «Devemos aproveitar as pessoas até ao fim, o máximo que possam render, devemos usar todas as forças possíveis para criar sociedades melhores», continua Adela Cortina, «não vamos deixar de lado 30% da população simplesmente porque alguém decidiu que aos 65 isso muda radicalmente e essas pessoas não são mais capazes de nada».

La oportunidad de envejecer

Em contrapartida, a professora defende o conceito de «idade pessoal»: «É uma conjunção da idade biológica, que é o processo vital peculiar, único e irrepetível para cada um de nós; da idade cronológica, que é aquela que marca o calendário de forma implacável, e da idade social, que é aquela que as sociedades vão marcando de forma convencional, com marcos específicos e comuns como a aposentadoria».

Estamos começando a vislumbrar uma nova revolução relacionada, nesta ocasião, com a idade? Existe uma massa social crítica: em 2050, 35% da população espanhola terá mais de 65 anos. Um terço dos espanhóis serão velhos, com todas as letras. E dada a evolução demográfica das sociedades ocidentais, muitos deles não serão pais nem, portanto, avós, pelo menos no formato consanguíneo tradicional. Adela Cortina defende que as faixas etárias devem «se unir cada vez mais» e que sejam realizadas atividades nas quais se juntem, «porque aí uns aprendem com os outros e há um enriquecimento mútuo».Como colocar essa ideia em prática surgirá, em parte, a partir dessa especialidade «ageingnomica» que a MAPFRE e a Deusto Business School criaram e que planta suas raízes em uma dessas frases de Prêmio Nobel que geram consciência, neste caso, uma frase do economista Amartya Sen, que concebe a economia como a arte de criar boas sociedades: criando riqueza com equidade, erradicando a pobreza e reduzindo as desigualdades.

Envelhecimento, economia e COVID-19

O Seminário Acadêmico 2020 sobre Envelhecimento e COVID-19 tem sido uma proposta para avançar na fronteira do conhecimento em torno da inter-relação entre o envelhecimento e a economia em um contexto caracterizado pelo impacto da COVID-19.

O objetivo era conhecer iniciativas, tanto trabalhos acadêmicos quanto projetos ou experiências reais já concluídas ou em estágio avançado de desenvolvimento.

As áreas temáticas combinaram economia, envelhecimento e COVID-19 nos âmbitos específicos de:

  • Atendimento e assistência sóciosanitária.
  • Novos modelos de trabalho.
  • Educação.
  • Transformação urbana e territorial.
  • Colaboração público-privada.
  • Produtividade empresarial e territorial.
  • Transformação organizacional e digital.
  • Estado de bem-estar.
  • Inovação, empreendedorismo e oportunidades de negócios.

O seminário dedicou especial atenção aos projetos que, neste cenário de pandemia, oferecem soluções reais para os desafios econômicos gerados pelo envelhecimento da população.El seminario prestó especial atención a proyectos que, en este escenario pandémico, ofrecen soluciones reales a los retos económicos que plantea el envejecimiento de la población.