José Antonio Martin Urrialde, fisioterapeuta, professor da Universidade San Pablo CEU e voluntário do Viva Makeni!

«A cooperação internacional torna você muito sensível aos problemas sociais que, através do conforto do primeiro mundo, não são valorizados»

TEXTO: CRISTINA BISBAL

Organizado e jovial, José Antonio não tem medo de desafios. É professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade San Pablo CEU desde 2000. Tem uma clínica em Madrid onde trabalha como fisioterapeuta do aparelho locomotor; e dirige os serviços de assistência da Maratona EDP Rock and Roll Madrid. Como se isso não bastasse, colabora com a Viva Makeni!, uma associação sem fins lucrativos fundada em 2018 que tem como objetivos melhorar a dignidade, a educação, a saúde e a qualidade de vida dos habitantes da cidade de Makeni, na Serra Leoa.

Sua relação com a ONG surgiu através da universidade onde trabalha, que já colaborou com a Universidade de Makeni em questões de habitabilidade. Isso foi em 2015, quando seus colegas o convidaram para visitar o país. A precária situação de saúde na área o levou a pensar em projetos relacionados à saúde buscando «a autonomia profissional dos trabalhadores de saúde do país, evitando a dependência do país cooperante». Assim surgiram os programas de promoção da saúde da ONG em que a fisioterapia é essencial.

Viva Makeni! possui um programa de correção postural e programa de treinamento em fisioterapia. Em que consiste?
O programa de fisioterapia inclui o lançamento e apoio da única Escola de Fisioterapia em Serra Leoa, localizada no distrito de Tonkolili e na qual vários professores da Universidade San Pablo CEU ensinam disciplinas na modalidade on-line e presencial. A Prevenção Postural está incluída nos Health Summer Camps, nos quais cerca de 200 crianças entre os 5 e os 15 anos participam em atividades lúdicas, desportivas e formativas em promoção da saúde. A prevenção postural é uma das atividades mais importantes.

Por que a fisioterapia é importante em Serra Leoa?
A fisioterapia é uma ferramenta fundamental para a promoção, manutenção e recuperação da saúde em qualquer parte do mundo, mas na Serra Leoa é importante pela falta de profissionais: existem seis fisioterapeutas em todo o país; além da grande variedade de doenças agudas e crônicas sofridas por seus habitantes devido as consequências de epidemias, aos inúmeros acidentes de trânsito e às frequentes lesões neurológicas pósparto…

Em relação à prevenção postural, as crianças costumam carregar grandes cestos com mercadorias desde muito cedo e queremos ajudá-las a prevenir futuras lesões crônicas.

Em que consiste o seu trabalho em ambos os programas?
Eu promovi o currículo da Escola de Fisioterapia e ajudei na sua aprovação pelas autoridades educativas da Serra Leoa. Além disso, dou duas disciplinas. A escola conta atualmente com 30 alunos que, quando terminarem a sua formação, serão os primeiros fisioterapeutas da Serra Leoa formados no seu próprio país. Um desafio! Quanto aos Health Summer Camps, eu organizo os conteúdos e atividades dos workshops de prevenção postural desenvolvidas pelos monitores locais que formamos. Também apoio o trabalho de Xavier Santos Heredero, responsável pelo Programa de Cirurgia Plástica, na recuperação pós-cirúrgica de pacientes operados no Hospital Holy Spirit, de Makeni.

O que mais te surpreendeu em Serra Leoa?
Para mim, Serra Leoa era um país ligado à guerra e ao Ebola até que tive a chance de conhecê-lo e entender sua história e tradições. É um país que luta para alcançar o bem-estar social equilibrando as grandes diferenças étnicas e culturais que o compõem. A coexistência pacífica de duas religiões —católica e muçulmana—, com laços de colaboração e ações sociais conjuntas na área da educação, são um sinal que sempre destaco e aplaudo. É um exemplo de tolerância.

O que o voluntariado te proporciona?
É uma maneira excepcional de ajudar os outros, colocando seus próprios conhecimentos, habilidades e competências a serviço do outros e, acima de tudo, garantindo que aqueles que você ajuda não dependam de você, mas se tornem auto-suficientes na construção de seu futuro. Especificamente, a cooperação internacional é uma escola de vida que te enriquece, te molda e te torna muito sensível aos problemas sociais que, às vezes, através do conforto do primeiro mundo, não são valorizados. O carinho e os sorrisos que você recebe das pessoas locais são os ativos essenciais para o engajamento. Mas também voltar e ver o fruto que o seu trabalho gerou.

Você havia sido voluntario antes de se juntar ao Viva Makeni?
Efetivamente. Minha experiência em cooperação internacional implementando programas de treinamento para fisioterapeutas e profissionais de saúde começou em 1998 com intervenções em Cuba, Argélia, Gâmbia, Bolívia, Bangladesh.