BRASSAï

Brassaï. View through the pont Royal toward the pont Solférino. c. 1933 Estate Brassaï Succession, Paris © Estate Brassaï Succession, ParisBrassaï . Extinguishing a Streetlight, rue Émile Richard. c. 1932. Estate Brassaï Succession, Paris © Estate Brassaï Succession, ParisBrassaï .Streetwalker, near the place d’Italie. 1932. Estate Brassaï Succession, Paris © Estate Brassaï Succession, ParisBrassaï. At Magic City. c. 1932. Estate Brassaï Succession, Paris © Estate Brassaï Succession, Paris Brassaï. Concierge’s Lodge, Paris. 1933 . Estate Brassaï Succession, Paris © Estate Brassaï Succession, ParisBrassaï. Montmartre. 1930-31. Estate Brassaï Succession, Paris © Estate Brassaï Succession, Paris

Produzida pela Fundación MAPFRE e com curadoria de Peter Galassi, curador-chefe do Departamento de Fotografia do Museu de Arte Moderna de Nova York de 1991 a 2011, a exposição que apresentamos a seguir é a primeira retrospectiva do famoso fotógrafo húngaro, organizada desde o ano 2000 (Centro Pompidou) e a primeira que ocorre na Espanha desde 1993.

TEXTO: ÁREA DE CULTURA DA FUNDACIÓN MAPFRE

 

Conta com o empréstimo excepcional do Estate Brassaï Succession (Paris) e outros empréstimos de algumas das instituições e coleções privadas mais importantes de origem norte-americana e europeia: The Art Institute of Chicago, The Museum of Fine Arts (Houston), The Metropolitan Museum of Art (Nova York), The Museum of Modern Art (Nova York), el Musée National d’Art Moderne, Centre Pompidou (Paris), The Philadelphia Museum of Art, The San Francisco Museum of Modern Art, David Dechman e Michel Mercure, ISelf Collection (Londres), e Nicholas e Susan Pritzker. Depois de passar pela Casa Garriga Nogués em Barcelona, de 20 de fevereiro a 13 de maio, a exposição se realizará pela primeira vez na sala Fundación MAPFRE Recoletos (de 31 de maio a 2 de setembro de 2018) e depois no Museu de Arte Moderna de São Francisco (SFMOMA) (de 17 de novembro de 2018 a 17 de fevereiro de 2019).

Brassaï (pseudônimo de Gyulá Halász) nasceu em 1899 em Brassó, na Transilvânia. Depois de estudar arte primeiro em Budapeste e depois em Berlim, mudou-se para Paris em 1924 para dedicar-se à pintura, mas logo encontrou uma fonte estável de renda na venda de artigos, caricaturas e fotografias para jornais e outras mídias ilustradas, e deixou de lado o desenho e a pintura (áreas pelas quais, no entanto, continuaria a sentir uma grande devoção e iria retomar ao longo de sua vida). Ele imediatamente recebeu um grande reconhecimento por este trabalho e, então, com a ideia de manter seu verdadeiro nome para suas pinturas, começou a assinar suas caricaturas e fotografias como «Brassaï», que significa  «de Brassó». Foi assim que ele começou a fotografar em 1929; primeiro com a câmera emprestada de uma amiga, mas logo adquiriu a sua própria, uma Voigtländer Bergheil, com negativos de placa de vidro de 6,5 x 9 cm. Durante a década de 1930, ele manteve uma atividade intensa. Também conheceu e virou amigo de pessoas que seriam muito importantes em sua vida, como Henri Michaux, Pablo Picasso, Eugène Atget, André Kertész, Georges Ribemont-Dessaignes, Maurice Raynal o Tériade.

A cidade de Paris se converteu no tema principal <0>de sua obra: seu tecido físico, seu dia a dia, e especialmente sua aparência e vitalidade noturna. Seu extraordinário tratamento da luz e a sutileza dos detalhes capturados em suas imagens o tornaram famoso; com essas ferramentas, Brassaï conseguiu instantâneos de tanto poder e capacidade evocativa que se tornariam verdadeiros ícones culturais, símbolos de uma era e testemunhos de seu irresistível fascínio pela capital francesa. Seu trabalho logo alcançou um reconhecimento inquestionável nos círculos da fotografia artística, mas também na indústria turística e nos circuitos fotográficos comerciais (por exemplo, de 1934 a 1937 trabalhou intensivamente em exposições e salões de cabeleireiro, principalmente por encomenda de revistas).

Em 12 de junho de 1940, dois dias antes do exército alemão entrar em Paris, Brassaï deixou a cidade. Mas retornou em outubro e permaneceu lá durante o resto da ocupação. Tendo se recusado a colaborar com os alemães, acabou sendo impossível fotografar abertamente, assim, o pedido de Picasso para fotografar suas esculturas em seu estúdio na rua Grands-Augustins tornou-se sua única fonte de renda. Além disso, e depois de um hiato que durou vinte anos, Brassaï voltou a desenhar e a esculpir, e começou a explorar seu notável talento como escritor. A partir deste momento, a fotografia não seria mais a sua única atividade e seu trabalho já não era dirigido pelo seu fascínio pelo mundo da vida noturna parisiense.

Em abril de 1945 conheceu Gilberte-Mercédès Boyer, vinte anos mais nova do que ele. Eles se casaram três anos depois. É também nesse momento que ele reorganizou seu arquivo: definiu quarenta e duas categorias temáticas, como Nuit [Noite], Plaisirs [Prazeres] e Étranger [Estrangeiro], com base no que atribuiu a cada negativo um número e um prefixo de uma ou duas letras. Além disso, devido à diversas encomendas da revista americana Harper’s Bazaar,voltou a dedicar parte do seu tempo à fotografia e a viajar regularmente (Edimburgo, Espanha, Marrocos, Itália, Grécia e Turquia são alguns dos lugares que visitou durante esses anos).

A cidade de Paris se converteu no tema principal
de sua obra: seu tecido físico, seu dia a dia, e especialmente sua aparência e vitalidade noturna

No início da década de 1950, ele já era um fotógrafo totalmente reconhecido. Em 1955, o Art Institute of Chicago hospedou a primeira de suas exposições individuais em um museu americano, que depois viajaria para outras cidades norte-americanas. Um ano depois, o Museu de Arte Moderna de Nova York inaugurou Language of the Wall. Parisian Graffiti Photographed by Brassaï. A Bibliothèque nationale de Paris dedicou-lhe uma exposição retrospectiva em 1963,  ‘Brassaï’.

Seu trabalho era reconhecido como uma das pedras angulares do nascimento e evolução de uma nova tendência na prática fotográfica entre as duas guerras mundiais. Os líderes deste novo movimento descobriram o potencial das cenas cotidianas, recuperando a concepção da fotografia como meio criativo, gerando imagens de forte evocação poética e visual que transcendia seu caráter meramente documental.

Assim, longe da emulação das artes tradicionais própria da fotografia no início do século, esses fotógrafos destacaram o potencial artístico da área. E quando essa tradição começou a ser celebrada nos anos setenta, a obra de Brassaï foi reconhecida como uma de suas grandes referências, tornando-se uma figura fundamental na história da fotografia do século XX. Foi nomeado Chevalier des Arts et des Lettres da Légion d’Honneur em 1973 e convidado de honra no Rencontres Internationales de la Photographie d’Arles,  juntamente com Ansel Adams e Bill Brandt, em 1974.

Morreu em Beaulieu-sur-Mer (França) em 1984, nunca tendo retornado ao seu país natal. Ele está enterrado no cemitério de Montparnasse.

Esta exposição traça sua trajetória através de mais de duzentas peças (fotografias da época, vários desenhos, uma escultura e material documental) agrupadas em doze seções temáticas, das quais a noite parisiense dos anos trinta é a grande protagonista.

Paris de noite

Em 1932 publicou Paris de nuit, um livro ilustrado com fotografias da noite parisiense tirados pelo jovem e ainda desconhecido Brassaï. Teve um grande sucesso, apesar de não incluir algumas das melhores cenas noturnas do artista (muitas delas seriam publicadas mais tarde). As páginas ricas em fotos e sem margens davam ao seu design uma grande modernidade. Um exemplar da época é exibido nesta exposição, juntamente com trinta fotografias que ilustram o pulso dinâmico e vibrante da noite parisiense, e que já são um bom exemplo do estilo direto e franco que o artista manteria durante o resto de sua vida.

Prazeres

Quando Brassaï organizou seu arquivo após a Segunda Guerra Mundial, sob o título de Plaisirs ele agrupou os subtemas relacionados ao submundo de Paris: mafiosos, prostitutas, casas noturnas… muito longe das convenções da classe burguesa. Reuniu uma coleção volumosa de imagens de locais de entretenimento, de bares até feiras populares e das pessoas que os frequentavam.

Mas essas imagens apresentam, ao mesmo tempo, uma realidade e um mito da noite parisiense:

«Eu estava ansioso para penetrar nesse outro mundo, esse mundo nas margens, o mundo secreto, sinistro, dos mafiosos, dos marginalizados, dos durões, dos insolentes, das prostitutas, dos viciados, dos invertidos. Errado ou não, senti naquele momento que este mundo subterrâneo representava uma Paris menos cosmopolita, a mais viva e autêntica, que nessas facetas pitorescas de seu submundo tinha preservado de geração em geração, quase sem alterações, o folclore de seu passado mais remoto»  (Brassaï, 1976).

Paris de dia

Ninguém fotografou Paris à noite tão precisamente quanto Brassaï, mas ele também focou no cotidiano da cidade à luz do dia. Monumentos, cantos pitorescos e detalhes da vida diária protagonizam grande parte destas cenas. Algumas de suas fotografias da década de 1930 também refletem seu interesse em estilos geométricos e recortes abruptos, que muitas vezes é encontrado na arquitetura e no ambiente urbano.

Graffitis

A valorização do graffiti como uma poderosa forma artística começou a surgir no século XX. Como os objetos tribais da África, a arte das crianças ou os pacientes psiquiátricos, o graffiti era considerado mais expressivo e vital do que outras formas refinadas da arte tradicional ocidental.

Brassaï foi, de fato, um dos primeiros a abraçar esse tema. Acumulador compulsivo, durante sua vida colecionou todo tipo de objetos abandonados, e assim que começou a fotografar, focou sua atenção para o graffiti que encontrava nas paredes de Paris. Assim chegou a tirar centenas delas, das quais apenas uma pequena amostra é apresentada aqui.

Ele preferia os graffitis que haviam sido gravados ou arranhados – mais do que os desenhados ou pintados – e nos quais as irregularidades do próprio muro desempenhavam um papel importante em termos estéticos.

Seu trabalho era reconhecido como uma das pedras angulares do nascimento e evolução de uma nova tendência na prática fotográfica entre as duas guerras mundiais

Minotaure

Entre sua chegada a Paris no início de 1924 e seus começos na fotografia seis anos depois, Brassaï criou um amplo círculo de amigos no cenário internacional de artistas e escritores de Montparnasse. Entre eles estavam Les Deux Aveugles (Os dois cegos), como chamavam a si mesmos os críticos de arte Maurice Raynal e o grego E. Tériade.

Em dezembro de 1932 – no mesmo mês em que Paris de nuit apareceu – Tériade convidou Brassaï para fotografar Picasso e seus estudos para ilustrar a primeira edição de Minotaure, a luxuosa revista de arte que apareceria em junho de 1933, impulsionada pelo editor suíço Albert Skira e a qual vários exemplos estão expostos aqui. Essa colaboração foi o ponto de partida de sua amizade com Picasso, uma das mais importantes de sua vida.

Durante os anos seguintes, o fotógrafo desfrutaria de um papel proeminente na publicação. Seu primeiro número incluiu uma série de nus e a incipiente série de graffitis, enquanto a número sete dedicou várias páginas às suas imagens noturnas. Essas criações são um bom reflexo da modernidade do artista e sua conexão com os círculos mais importantes da vanguarda parisiense.

Personagens

Em 1949, no prólogo de Camera in Paris, uma monografia dedicada aos fotógrafos contemporâneos, o próprio Brassaï, parafraseando Baudelaire no “Pintor da vida moderna”, tentou estabelecer uma linha de continuação entre a arte dos fotógrafos e alguns dos melhores artistas do passado como Rembrandt, Goya e Toulouse-Lautrec. Nesse sentido, ele explicou que, assim como eles, a fotografia é capaz de elevar os temas retratados ao mesmo nível que a pintura, porque através de um conjunto ou série de instantâneos, o fotógrafo pode capturar motivos de natureza universal e não apenas indivíduos. Desde um trabalhador do Mercado de Les Halles até um travesti ou um confrade em Sevilha, todos os personagens presentes nas imagens nesta seção mostram essa ideia: na sua dignificação, eles excedem sua individualidade para representar a todo um coletivo.

Lugares e coisas

Um dos primeiros projetos de Brassaï que ele nunca realizou foi um livro de fotografias de cactos. Muito mais tarde, em 1957, ele faria um curta-metragem sobre animais. Mas normalmente os interesses de Brassaï em relação a objetos e lugares acabaram focados em criações humanas, refletindo uma curiosidade inabalável sobre as pessoas que as criaram, usaram ou habitaram.

Durante suas viagens, ele fez numerosas fotografias das quais podemos ver aqui uma amostra: uma perspectiva da Sagrada Família de Gaudí a partir de uma posição elevada, uma parede pintada no Sacromonte de Granada e uma vitrine em Nova Orleans.

Sociedade

Esta seção reúne uma série de fotografias em grande parte realizadas em eventos e noites da alta sociedade. Banquetes, bailes, recepções, realizados na década de 1930. Brassaï possuía uma boa reputação social e profissional. Durante a ocupação, passou muito tempo em bares e cafés, onde começou a escrever fragmentos de conversas que escutava sem modificar depois, deixando, como em suas fotografias, que os personagens surgissem, como ele mesmo apontou, «sob sua própria luz».

Corpo de mulher

A maioria dos desenhos que foram conservados da permanência de Brassaï como estudante de arte em Berlim em 1921-1922, assim como a maior parte dos que fez durante a década de 1940, são nus femininos. O mesmo acontece com muitas das esculturas que ele começou a fazer depois da guerra a partir de pedras erodidas pelo efeito da água.

Normalmente, para este tipo de fotografias, Brassaï ia até a casa ou estúdio do personagem em questão, embora no resultado final dissesse que o espaço passava praticamente despercebido. O modelo e o fotógrafo confrontam-se com total honestidade e, no caso dos nus, com uma forte presença carnal que evoca as formas volumétricas da escultura.

Retratos: artistas, escritores, amigos

«Forçar o modelo a se comportar como se o fotógrafo não estivesse lá é realmente fazer ele representar uma comédia. O natural não é esconder essa presença. O natural nessa situação é que o modelo pose honestamente» (Brassaï, nota sem data).

Pablo Picasso, Salvador Dalí, Henry Miller —que cunharia a expressão «The eye of Paris» (o olho de Paris), em referência a Brassaï—, Pierre Reverdy, Jacques Prévert, Henri Matisse, Léon-Paul Fargue… são apenas alguns dos protagonistas dos retratos que podemos contemplar nesta seção. A maior parte dos retratos de Brassaï eram de pessoas que ele conhecia e o resultado, talvez por causa dessa proximidade, é de grande serenidade. Mas mesmo quando ele retratava modelos que não conhecia, e o objetivo não era tanto fazer um retrato representando um certo tipo social, o artista lhes confere uma dignidade que transforma o motivo representado em um personagem distintivo.

Sonho

A espontaneidade não era um aspecto que realmente interessava Brassaï e, para demonstrá-lo, ele fez entre 1932 e 1937 essas imagens de pessoas dormindo em lugares públicos. Instantâneas em que o artista certamente poderia aproveitar e levar o tempo que precisasse antes de capturar a cena. Fotografias da vida cotidiana em que Brassaï continua a trabalhar com pontos de vista particulares e seu gosto pelos recortes, como é refletido em Montmartre (1930-1931) ou a estranha Marselha (1935-1937).

A rua

O trabalho de Brassaï para Harper’s Bazaar levou-o a percorrer a França e muitos outros lugares, da Espanha até a Suécia, Estados Unidos e Brasil. Assim, embora seu talento tenha raízes profundas em Paris, ele acumulou uma extensa coleção de fotografias tiradas em lugares que não eram familiares para ele. Nesta seção, várias dessas imagens são mostradas, três delas tiradas na Espanha.

 

Pés de foto